Imagine-se nascendo no ano da gripe espanhola e, a partir de então, vivenciar todos os acontecimentos marcantes até a chegada do estopim da COVID-19. Uma verdadeira pessoa centenária! Agora, imagine-se também nascendo mulher no século XX e vivenciando os primeiros passos da luta das mulheres, porque até então elas não tinham direitos garantidos, na verdade, até poderiam ter um pouco, se nascessem de uma família afortunada. Mas isso não quer dizer que sua liberdade era garantida, só queria dizer que a sua gaiola, construída pelo patriarcado, era um pouco mais enfeitada do que as das demais. Privilégio! Sim, você até poderia ter um certo tipo de privilégio social, mas... e se sua família perdesse todos os bens e precisasse começar do zero, e seu pai, mantenedor da família, por um ato desesperador de não saber o que fazer com a falência, acometida devido A Grande Depressão, decidisse que o mundo não mais o cabia e deixasse você e sua família a mercê? O que você faria? Como será que seria sua vida a partir de então?
Violeta, escrito por Isabel Allende, e publicado em 2022, narra a vida centenária de Violeta del Valle. Acompanhamos a trajetória de vida da personagem ao decorrer desses cem anos através de cartas que ela escreve à uma pessoa muito amada por ela, que só descobriremos a identidade ao decorrer da leitura. Marcada por uma existência de altos e baixos, boas e más escolhas, vemos Violeta crescer e se modificar conforme eventos marcantes aconteciam: desde crises econômicas a ditaduras latino-americanas, como as que aconteceram na América do Sul.
"É impossível explicar essa mescla obscena de atração e rejeição, paixão e raiva, esse costume necessário de brigar e reconciliar-se; eu mesma não entendo, porque com o tempo a gente lembra dos fatos, mas as emoções se apagam. Já não sou a mulher que fui então."
Violeta é uma leitura fantástica, a combinação de eventos históricos com o crescimento físico e pessoal da personagem cria um cenário rico e capaz de explorar os mais diversos sentimentos vivenciados pela natureza humana, abordando as nuances do viver, do pensar e do sentir. Em como nossa vida é, ao mesmo tempo simples, e existe uma complexidade no simples viver: "Há um tempo para viver e um tempo para morrer. Entre ambos há um tempo para recordar."


Nenhum comentário:
Postar um comentário